Quando soube que estava grávida de uma menina, chorei. Diante do olhar perplexo de meu marido, disse-lhe: As mulheres sofrem mais.
Então, essa é uma história sobre ser mulher. O que é ser mulher? Para tal pergunta, não há uma resposta única. Mas já houve. No tempo da minha avó, haviam bem poucas possibilidades. Um dia, meu avô disse, com orgulho, que jamais havia brigado com minha avó. Só depois entendi que eles jamais haviam brigado porque minha avó sempre se calara. Esse era o modelo a ser seguido. Minha mãe nasceu cerca de quinze anos antes do movimento feminista, de forma que, apesar da abertura de inúmeras possibilidades de ser mulher para a sua geração, a contradição ecoava (e ainda ecoa) em sua alma: calar ou expressar-se? Trabalhar ou ser esposa e mãe?
Minha geração vive as conquistas do feminismo, porém, muitas questões ficaram sem resposta: como competir no mercado de trabalho e não perder a feminilidade? Como ser mãe e amar o seu trabalho, simultaneamente e sem culpa? Como ser uma boa companheira e não se sentir oprimida?
Aí, entra a história - um mito egípcio, ou seja, uma história muito antiga. Os mitos são histórias fantásticas, que nos dão pistas sobre como agir em determinadas situações típicas da vida. São histórias que nos remetem ao sagrado, ao eterno, a uma dimensão transcendental. Infelizmente, nossa sociedade esqueceu muitas dessas histórias excelentes.
Vou contar-lhes o mito de Ísis, uma deusa egípcia, que se casou com seu irmão Osíris. Na mitologia, há muitos casais formados por irmãos. A ênfase aí não está na relação incestuosa, mas, na origem comum, na possibilidade de uma relação de companheirismo e igualdade.
Osíris foi um deus importantíssimo, que levou a civilização ao Egito: aboliu o canibalismo, introduziu os instrumentos de agricultura, ensinou como produzir grãos para confeccionar o pão, e as uvas para o vinho. Instituiu o culto aos deuses, construiu os primeiros templos e esculpiu as primeiras imagens divinas. Partiu para civilizar a Ásia - de maneira pacífica - e deixou sua esposa, Ísis, para governar o Egito e, quando voltou, encontrou o reino em perfeita ordem.
A tarefa de Ísis, de administrar o Egito, foi realizada com sucesso, tudo permanecendo em "perfeita ordem". Aqui vemos, já no Egito, um modelo de feminino que não prescinde do trabalho, da realização profissional, mesmo que esteja substituindo o esposo - essa é apenas uma das facetas que a deusa realiza com competência.
Osíris foi vítima de um golpe perpetrado por seu irmão Seth que, invejoso de seu poder (a velha história de inveja entre irmãos), construiu-lhe uma armadilha, um cofre no qual foi encerrado e levado ao Nilo. O Esquife percorreu a costa da Fenícia até repousar na base de uma árvore que, ao crescer, exalava um maravilhoso perfume. A árvore foi utilizada no palácio do rei de Biblos. Ísis, tomada pela dor, cortou seus cabelos e partiu pelo mundo em busca do marido, até que ouviu falar do perfume vindo do palácio, e para lá se dirigiu disfarçada. A rainha Astarte confiou-lhe os cuidados de seu filho, o qual Ísis punha nas chamas do fogo purificador, que confere a imortalidade. Astarte, tendo flagrado o bebê entre as chamas, gritou horrorizada, e a deusa revelou sua verdadeira identidade. Ísis trouxe Osíris de volta à vida e ao Egito, onde Seth, novamente, o capturou, cortando-o em pedaços e espalhando-os pelo mundo. Novamente, Ísis vai em busca das partes do marido e junta-as no que foi considerado o primeiro ritual de embalsamento, que lhe concedeu imortalidade. Osíris decide, então, recolher-se ao mundo dos mortos.
A devoção de Ísis por Osíris é imensa, e a deusa não mede esforços para resgatar e ajudar o esposo. Despe-se de seus atributos de rainha e deusa e, mergulhada em dor e sofrimento, vai buscá-lo.
Lembro-me de uma ocasião, em que meu marido estava aborrecido, magoado, sentindo-se cansado, deprimido e desestimulado. Disse-me que havia pedido por socorro, e eu não o atendi. Não percebi - de certa forma, ainda o olhava como modelo masculino de fortaleza. Não reparei que ele estava em "pedaços". Não conseguia definir o que me doía mais: sua dor ou a percepção de minha insensibilidade.
Ísis junta os pedaços do marido, reúne-os, trata-os com preparados e ungüentos e, batendo suas asas, insufla-lhe vida. Logo após retornar-lhe a vida, o casal de deuses concebe Hórus.
Como dar a vida se não somos deusas? Na luta por não reproduzir mais o modelo feminino da submissão, muitas vezes, nos perdemos na dureza, na insensibilidade - logo os aspectos que muitas vezes criticamos nos homens.
Uma das coisas mais bonitas e interessantes de se estar casada é justamente o companheirismo, é essa cumplicidade, atenção e devoção, que permite insuflar vida quando o nosso companheiro (ou companheira) está desvitalizado (literalmente "sem vida"). Dessa profunda comunhão, nasce a criança divina - que, em termos simbólicos, é algo novo, precioso e raro: é o que acontece quando conseguimos ultrapassar uma crise conjugal com a aliança fortalecida. A deusa era venerada, também, por sua compaixão e misericórdia diante do sofrimento humano.
A relação de Ísis com o ciclo de vida, morte e renascimento, é uma característica frequente das deusas antigas. Perceber o que já está morto, não serve mais e deve ser transformado em algo novo, algo mais adequado às necessidades atuais: esse é um dos aspectos da sabedoria da deusa.
Ísis possuía uma magia poderosa, a qual nem os deuses estavam imunes. Quando era apenas uma simples mulher a serviço de Ra (deus criador), persuadiu-o a revelar-lhe seu nome secreto. A deusa tirou vantagem do fato do grande deus-sol estar velho, a cabeça trêmula e a boca a babar. Misturando terra com saliva divina, Ísis modelou uma serpente venenosa, que picou Ra, que se mostrou incapaz de curar a si mesmo de uma ferida, cuja origem não conhecia, tendo que recorrer às palavras de Ísis. A mesma disse-lhe que só conjuraria o veneno se Ra, dominado pela dor, lhe revelasse seu verdadeiro nome.
A deusa também era conhecida como "Senhora das Palavras de Poder". Vejamos o sentido desta expressão: quais são os encantamentos proferidos por Ísis? Palavras de compreensão, confiança e estímulo, palavras de poder!
Um manuscrito alquímico conta como, certa vez, um anjo desejava unir-se a ela e a maneira pela qual a deusa deteve seu desejo, até que ele lhe revelasse os segredos da alquimia.
Ísis é muitas vezes representada amamentando Hórus - de maneira similar às imagens posteriores da Virgem Maria amamentando o Menino Jesus. Depois que Osíris retirou-se para o mundo dos mortos, a deusa permaneceu dando apoio a Hórus, na empreitada de vingar o pai. É modelo de mãe presente e apoiadora.
É interessante pensar na atualidade do mito de Ísis para a mulher contemporânea, dividida entre tantas possibilidades, e com extrema dificuldade para realizá-las de forma coerente (essa mulher, muitas vezes, também se sente em pedaços). Ísis nos ensina uma maneira sábia e plena de ser companheira, mãe, profissional, resguardando o que o feminino tem de melhor. Aprendamos com ela: ela não cobra, mas persuade; não critica, mas sugere; não cede, mas barganha.
Ter uma filha mulher não me entristece mais, pelo contrário, é uma fonte imensa de alegria, esperança e aprendizado. Olho para as mulheres da minha vida: avós, mãe, irmã e, agora, minha filha. Percebo que, apesar das gigantescas transformações, compartilhamos do mistério e da dádiva de sermos mulheres.
Luana Wedekin
Mestrado em Antropologia Social pela UFSC Florianópolis
Arteterapia pelo Instituto Sedes Sapientiae São Paulo.
